O Diálogo-Opinião por Paulo Sousa

2021-08-22

O Diálogo

 

O tempo que vivemos exige de cada um de nós um esforço acrescido para perceber o quanto importante é para as nossas vidas – pessoal e coletiva- uma informação clara e como é fulcral um processo de comunicação ajustado para que ninguém seja prejudicado.

A crise pandémica veio reforçar esta urgência, mas o problema é crónico nas relações que estabelecemos, seja por via da incapacidade de escrutinar que a informação é clara, seja em garantir que efetivamente o processo de comunicação é o mais ajustado e garante a equidade para todos.

Com mais um ato eleitoral à porta, não é de mais repensar se os cidadãos estão, efetivamente, a receber toda a informação que precisam e se o processo de comunicação está a ter o sucesso desejado.

Duvido que se pode tirar uma conclusão tão assertiva sobre uma matéria em que é hábito falharmos; seja porque temos dificuldade na explicação que ajuda a trocar por miúdos o que parece ser técnico e complicado, seja por termos uma dificuldade estrutural de falarmos uma linguagem que provoque um feedback útil ao objetivo eleitoral: garantir que todas e todos, sem exceção, exercem o seu direito e dever de votar de forma consciente, livre e informada.

Ao longo de 45 anos de eleições autárquicas, abdicamos, em muitos casos, de um exercício crítico em relação à governação e estabelecemos, em troca, uma confiança nos eleitos, depositando neles e nelas, a esperança de governem bem e para toda a comunidade.

Sem pôr em causa os méritos de quem se guia por esta relação personalizada, a Democracia só tem a ganhar quando promovemos uma saudável tenção fundamentada na abordagem que estabelecemos e no diálogo que se cruza obrigatoriamente entre as partes.

Tradicionalmente, o diálogo é substituído por uma silenciosa e estranha forma de aceitar e/ou rejeitar o que o outro diz, sem argumentos plausíveis e com uma dificuldade acrescida de perceber e aceitar a diferença. Isso leva necessariamente ao divórcio, prejudicando o escrutínio saudável que devia ser privilegiado.

Ao longo da história recente, poucos foram os que desencadearam uma abordagem percecionada e aceite pelos outros como resultado de um processo de comunicação imaculado. Nelson Mandela e António Guterres contribuíram, a seu tempo, para a justeza do diálogo e do debate como instrumentos fundamentais da civilização.

Mesmo assim, são poucos os que aprenderam quanta falta nos faz este instrumento tão fundamental à vida em sociedade, dando lugar ao medo e ao receio como uma arma poderosa do apoderamento da consciência individual. A Democracia estabelece como princípio o seu contrário e por isso só se pode entender esta letargia como um sinal negativo a que urge responder, para não se cristalizar na sociedade portuguesa, uma atónita indiferença que apenas serve os fracos e destrói a capacidade de cada um, por si, formar uma opinião informada e consistente. Ao prolongarmos esta agonia da Democracia, estamos a dar uma machadada nos seus fundamentos e a adiar o desejo de termos uma cidadania efetivamente ativa e capaz de acrescentar valor em sociedade.

Ocorre lembrar as palavras do pensador Celso Corrêa de Freitas: “Na Democracia, o diálogo é a porta mais importante que se abre para conhecimento, análise e solução dos problemas, do cidadão e da municipalidade”. É tão importante a sua lição como a do iluminista francês, Voltaire: “posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até à morte o seu direito a dizê-lo”. Não é preciso reinventar nada, basta apenas concretizar esta necessidade e assumirmos que o caminho pode ser varrido das pedras purulentas que contaminam a Cidadania como um vírus indesejável e mortífero. Hoje, mais do que nunca, temos as armas que precisamos para inverter esta noção de viver em coletivo e mal está o que ainda ajuíza como eficaz, o tónico da Indiferença. A campanha contra a Abstenção dará o seu contributo para desfazer equívocos e elevar o diálogo e o debate à condição de direito fundamental de todos e nunca como um privilégio de alguns. Cabe a cada  um estabelecer os parâmetros das suas necessidades de informação e às candidatas e candidatos, demostrarem a sua disponibilidade de desenvolver um processo de comunicação que ajude as portuguesas e os portugueses a escolherem os seus representantes. Esta é uma oportunidade único para manifestarmos como podemos fazer a Diferença. A pouco mais de um mês de voltarmos a ser chamados a eleger os que vão governar as autarquias portuguesas, temos o dever de fazer mais pela Democracia do que apenas contemplar o seu conjunto amplo de Liberdades.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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