OPINIÃO Come e cala por Silva Araújo

2021-06-17

1. Sou um dos subscritores do manifesto contra a indiferença dinamizado por Paulo Sousa e apresentado no dia 07 no Altice Fórum. Sou dos que se preocupam com a grande abstenção nos atos eleitorais e diversas vezes tenho refletido sobre as causas e o significado.

O manifesto lembra que «entre 1975 e 2015, a abstenção em atos eleitorais para a Assembleia da República aumentou oito vezes (Público, 3 de Out de 2019), atingindo os 45,5% nas Legislativas de 2019. Na mais recente eleição para a Presidência da República, mais de 60 por cento dos eleitores não votou. Nas eleições autárquicas, apesar de serem as mais concorridas, o valor médio da abstenção é superior a 40 por cento».

2. A abstenção nos atos eleitorais é uma das formas de não participação na vida da comunidade. Mas há mais. Muitas mais. Atrever-me-ia a dizer: educa-se para a não participação. Há setores da comunidade em que, a quem dirige, convém que as pessoas se limitem a cumprir ordens e a executar decisões. É-lhes muito mais cómodo.

— Come e cala, ouve-se muitas vezes.

— Mas a sopa está salgada… mas o peixe não foi limpo…

— Não tens nada que refilar. Come.

Negou-se e nega-se às pessoas o direito de terem voz ativa. É mais fácil lidar com números do que com pessoas e para certos mandões os outros não passam de números. Algo de que dispõem e tratam como lhes convém.

É uma indignidade tratar os outros como números, mas não é menor indignidade aceitar ser tratado como número ou resignar-se a ser número.

Já agora: que participação têm os cidadãos na elaboração das listas que em atos eleitorais são apresentadas a sufrágio? Não vem tudo cozinhado de cima?

3. Há que refletir sobre a forma como, muitas vezes, a autoridade é exercida. E por trás da falta de participação está, em muitos casos, o mau uso da autoridade ou o abuso da mesma.

Fala-se muito em diálogo, mas há diálogos feitos ruas de sentido único: só funcionam de cima para baixo.

Isto de dizer: vamos conversar, porque tens o dever de me ouvir, furtando-se ao dever de ouvir o outro…

Há mandões que se consideram omniscientes e omnipotentes. Fiados na sua omnisciência e omnipotência ditam ordens e impõem decisões. E os outros que as cumpram e aguentem.

4. Criaram os livros de reclamações. Onde estão? Que acontece a quem os exige? Que efeitos práticos tem o seu uso, além das possíveis represálias sobre quem os usou?

Reclamar. Mas para quê se de antemão se sabe que não adianta nada a não ser ir para a lista negra? Reclamar junto de quem se quem dá as ordens e toma as decisões não dá a cara?

5. Educar para a participação é uma necessidade urgente em muitas comunidades. Mostrar às pessoas, com atos, que têm voz ativa. Que devem pensar pela própria cabeça e não dizer amém a todas as ordens do chefão. Reconhecer-lhes o direito de terem as suas opiniões e de livremente as expressarem. Mostrar-lhes que tais opiniões são devidamente apreciadas. Reconhecer aos outros o direito de discordarem, com verdade e com bons modos, mas discordarem, com firmeza e sem ambiguidades. E sem medo.

6. Quem manda deve saber ouvir aqueles relativamente aos quais exerce a autoridade. Deve saber analisar as suas discordâncias e reconhecer-lhes o direito à indignação. Dar-lhes razão sempre que a razão esteja do lado deles.

Ser autoridade também é saber reconhecer as próprias limitações, saber reconhecer que exagerou ou se precipitou, ter a humildade suficiente para reconhecer e corrigir os próprios erros. Não é apenas aos de baixo que se exige estendam a mão à palmatória.

O «come e cala» ou o «cala-te pràí» é a negação, ditatorial, do direito à participação. Mas isso existe.


Deixar comentário



Lista de comentários