Opinião-O Poder do Exemplo por Rui Maurício

2021-07-02

 

 

O PODER DO EXEMPLO

 

As primeiras e mais básicas coisas da vida aprendemos pelo exemplo dos outros (dos pais, dos avós, dos professores, familiares e amigos). E isto sucede porque o exemplo tem uma influência no ser humano que é inegável.

 

Daí a importância do “bom” exemplo! E o exemplo tem tanta importância que é, na verdade, um exercício de Poder!

 

Diz o ditado popular “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”, tendo, por certo, o dito origem na incongruência dos nossos comportamentos face ao que pretendemos que seja a actuação dos outros perante nós.

 

Enquanto teimarmos em reflectir a crença do nosso ideal nos outros, ficaremos distantes do ideal social que almejamos.

 

Nos tempos presentes, é comum (até mesmo banal) a crítica e o julgamento ao comportamento dos outros – seja num contexto privado ou não, mas aparentemente com mais predominância no juízo público (mormente nas redes sociais), nomeadamente juízos preliminares, muitas vezes irreflectidos e sem base factual concreta e sólida.

 

E esta realidade é transversal na sociedade, estando presente no indivíduo em si, mas também no colectivo. A opinião pública é “fabricada” em contexto de “fast food”, carecendo duma condimentação e confecção adequada. Com efeito, muitas vezes, essa “opinião pública” não condiz com o comportamento individual, que passa, em si mesmo, incólume à crítica e ao juízo.

 

Exemplo disso, é o facto de individualmente não aceitarmos ser julgados ao arrepio das normas, sem um julgamento justo e a realização de prova cabal que conforme e ateste o libelo acusatório. Porém, já nada nos contém de julgarmos de imediato e de forma, por vezes, sem limites os outros por um qualquer comportamento noticiado nos media, carente de factos reais, concretos, indesmentíveis e, portanto, sindicáveis no juízo que sobre eles será adequado fazer.

 

Criticamos os outros de estacionar em segunda fila, mas não deixamos de parar em plena faixa de rodagem à frente de uma escola “só para ir ali deixar o filho”, ou aceitamos que a pintura do prédio seja feita sem factura, pois “assim não temos que pagar o IVA”, ou não nos reservamos de ligar para um conhecido que é médico num hospital público para ver se é possível acelerar uma consulta de especialidade ou uma intervenção cirúrgica…

 

Também condenamos as figuras públicas e todas as privadas que se tornam públicas pelos seus escandalosos comportamentos, não tanto porque condenamos os seus comportamentos, mas mais pelo facto de que “se fosse comigo não teria o tratamento que é dado a esses ‘bandidos’ que passam pelos pingos da chuva”… Compreender isto é atentar no que dizemos quando vemos presentemente os grandes devedores do Novo Banco (ex-BES): “se fosse eu a não pagar a dívida da casa, vinham logo penhorar-me tudo”…

 

Esta premissa de pensamento revela logo a frustração que temos perante o delinquente, o incumpridor… não é o facto condenável em si que julgamos, mas antes a ausência de perdão sobre um hipotético comportamento que poderíamos ter (e não temos, porque “somos gente séria”).

 

Tenho esta convicção (idílica por certo) de que uma sociedade melhor só é almejável com cidadãos melhores. E cidadãos melhores, são cidadãos que olham para dentro de si, inflectem e reflectem os seus melhores comportamentos nas comunidades em que estão inseridos (família, amigos, trabalho, colectividade e sociedade em geral) e através do exemplo semeiam comportamentos que constroem sociedades fortes, dignas e desenvolvidas.

 

Não podemos ser indiferentes ao nosso exemplo. Não podemos querer dos outros aquilo que não fazemos, nem sequer, por nós.

 

Não podemos exigir dos outros o cumprimento dos deveres, se nós não exercemos os nossos direitos, nem cumprimentos de forma íntegra os nossos deveres.

 

Por isso, e porque este texto é redigido no contexto de adesão e apoio ao movimento cívico http://candidaturacontraaindiferenca.pt apelo a que não sejamos indiferentes a nós e ao mundo que nos rodeia, que semeemos o exemplo - o bom exemplo - em prol das gerações vindouras e em respeito pelo legado das ancestrais gerações (a quem devemos a liberdade e a oportunidade de exprimir a nossa “tão importante” opinião).

 

Inseridos num Estado de Direito Democrático, conquistado com suor e lágrimas (felizmente sem sangue) por aqueles que se viram oprimidos por um regime sem espaço para se ser e para se ter, temos um Dever (que não só de um Direito se trata) de, quando chamados a isso, exercer o Voto (mesmo que esse voto seja representado num protesto individual e colectivo, num voto branco ou nulo, ou mesmo no voto de simpatia pessoal, filiação ou militância partidária, vontade de ruptura ou crença num milagre…).

A abstinência no voto é o primeiro passo para deixarmos de ser nós e vivermos exclusivamente do exemplo imposto pelos outros e a nos conformarmos no exercício (enquanto nos for permitido) da crítica e do juízo aos outros… que em nada nos trará satisfação, conforto ou tranquilidade.

 

 

Rui Maurício

Julho de 2021


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