Opinião por Jorge Saraiva-Participar na construção do futuro começa por não abster-me das escolhas do país.

2021-08-24

Participar na construção do futuro começa por não abster-me das escolhas do país.

 

 

Quase metade (43%) dos portugueses considera que a democracia foi enfraquecida desde que começou a pandemia. Se conjugarmos a taxa de abstenção de 60,8% no inicio deste ano a este resultado do estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos verificamos um sério problema cujas consequências vão muito além de uma democracia débil atingindo igualmente o progresso e a qualidade de vida de cada um de nós. Elemento assustador do mesmo estudo, é que mais de 40% dos portugueses afirmaram ser “bom ou muito bom” que o país fosse governado por um líder forte sem se “preocupar com o Parlamento nem com eleições”. Desta forma, Portugal integra um vasto grupo de países desenvolvidos que atravessam um ciclo de recessão democrática. Em alguns destes países, existem sólidas evidências de governos usarem a pandemia de COVID-19 como argumento para restringir liberdades individuais penalizando projetos de imprensa independentes, restringindo direitos de minorias entre outros fundamentais de um estado de Direito democrático enquanto outros estudos exaustivos (PEW, Freedom House e the Economist) evidenciam um fenómeno de profunda deceção popular com o funcionamento da democracia e dos sistemas de representação política. Com a elevada probabilidade de um contínuo agravamento de problemas globais (fruto das mudanças climatéricas, da destruição da biodiversidade, da digitalização e da mudança na liderança económica entre os EUA e a China), prevê-se um fenómeno descrito por Alvin Toffler como o choque do futuro. Um período onde algumas sociedades adotam um caminho progressista através de um sistema Holacrático de governança baseado na participação ativa das comunidades em ciclos de competências enquanto outras sociedades irão procurar o negacionismo e protecionismo adotando o retrocesso que, em algumas situações, implicam sistemas políticos mais autoritários e extremistas. A primeira etapa para uma decisão certa sobre o caminho a encetar é garantir que esta seja tomada por todos e não apenas por franjas da sociedade. O progresso depende de todos (os mais possíveis) assumirem a jornada e a responsabilidade pelo nosso futuro comum como país e sociedade. Atualmente, quem nos governa é legitimado por uma franja muito reduzida da nossa sociedade. Até a vitória esmagadora do Marcelo nas presidenciais com 60,7% dos votos representa um apoio de menos de um quarto (23,3%) da população que poderia votar. Tal realidade, já muito digerida pelos principias partidos políticos, pode originar uma orientação governativa para um nicho social de quem ainda vota relegando os restantes para o esquecimento. Em Portugal, os mais jovens, os não filiados em partidos políticos e emigrantes são os que menos se fazem representar nas urnas e potencialmente menos influenciam as decisões que governam as nossas vidas e a nossa sociedade. Curiosamente, as franjas que mais se abstêm de eleger os governantes são os que têm um papel mais critico na construção do nosso futuro. É por essa razão, meritório e urgente o surgimento de movimentos contra a indiferença! A nossa sociedade deve assumir o voto (e não a abstenção) como a única forma de protesto ou de apoio. Imagino como seriam os resultados se a metade que não vota em Portugal decidisse ir às urnas expressar o sentimento que têm face às soluções disponíveis. Porque no voto existem respostas. Aqueles que acham que o poder é sempre o mesmo entre dois partidos semelhantes, podem votar em partidos novos e pequenos. Desta forma, incentivam a formação de novos partidos e aumentam a probabilidade de alguns virem a ser a solução que deseja. Aqueles que acham que o sistema não está desenhado para facilitar a vida do eleitor. As eleições são um processo complexo que até parece desenhado para aumentar a abstenção numa era em que poderia ser simplificado (pelo voto eletrónico ou votar em dias úteis e etc). Com o voto, terão o poder de mudar as coisas. Já tive de votar numa embaixada no estrangeiro e senti alguma revolta com o processo, mas o meu voto nessas circunstâncias tinha uma motivação: “e se em vez de 2% fosse 100% dos imigrantes a votarem nestas eleições? De certeza que este processo mudaria nos anos seguintes.” Os dois parágrafos anteriores são apenas os principais estereótipos do estudo: “Abstenção e Participação Eleitoral em Portugal: Diagnóstico e Hipóteses de Reforma” coordenado por João Cancela e Marta Vicente, mas que demonstram que participação ativa nas eleições implicam uma responsabilidade sobre os rumos que todos nós como uma sociedade iremos adotar. Por isso, o país precisa de uma reforma! Precisa de entender as razões de quem não vota, de entender as falhas no sistema eleitoral e entender a sociedade individualizada para construir um ambiente mais participativo. Porque o futuro depende do papel que cada um desempenha… na comunidade que todos nós somos!


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