OPINIÃO Por José Miguel Braga- Da Indiferença

2021-06-09

Por José Miguel Braga

 

Da Indiferença

A minha sorte é que só tenho que falar dez minutos. À cautela, levo o texto escrito. Os
mundos da indiferença são vastos e difíceis de entender e de perscrutar.

Sei bem o motivo que nos move ou que nos trouxe a esta reunião. O Manifesto contra a
indiferença, assinado por algumas dezenas de cidadãos, pretende lembrar e louvar, ao
mesmo tempo, esse direito fundamental que todos temos a participar na vida pública e a
fazê-lo, também, através do voto. Muitos portugueses estão ainda lembrados de tempos
obscuros e difíceis. Lembram-se da vida espezinhada, do pé descalço, da sombria
chusma de bufos, da desconfiança instituída, do "avô cavernoso" que a todos vigiava
com a sua paternidade ilegítima, nascido de uma época infausta e de negros desígnios.
Quantos morreram e se sacrificaram, quantos perderam a liberdade e o direito ao
trabalho, quantos se exilaram, quantos viviam aterrorizados com o negrejar de aves
agoirentas, quantos se benziam nos altares manchados de sangue, quantos desejavam
falar e não podiam? Tivemos sorte. Mudamos de regime e isso mudou tudo ou quase
tudo.

Chamamos democracia ao estado de coisas em que agora vivemos. "O governo do
povo", se recorrermos à etimologia. Esse governo, no entanto, nasce de uma espécie de
transubstanciação, através da qual os eleitos nos representam, falam por nós, dialogam e
discutem, urdem difíceis acordos, separam-se, mas respeitam-se e depois fica cada um
na sua e, entretanto, os tempos mudam e o que era já não é bem assim e a história
continua. Não, a democracia não é a arquitectura da perfeição, coisa estática, montra de
um tempo passado, mais ou menos esfíngico e difícil de aproximar. Será antes o modo
que encontramos de regular o entendimento como povo, antigo povo e território,
complexa história de derrotas e vitórias, de vilezas e crimes, mas também de glória e
acções extraordinárias bafejadas pela bondade, pela partilha e pelo desejo de promover
um pouco mais de igualdade e justiça. Não, meus amigos, a democracia não é um
regime perfeito e o homem também não é bom por natureza. Será, no entanto, o menos
mau ou o melhor de todos os que neste mundo se vivem. A democracia é uma causa a
longo termo, coisa difícil e exigente, que necessita da experiência, da reflexão sobre o
que foi, da promoção da coisa diferente. Ao mesmo tempo, ela compõe-se de um corpo

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de leis, é certo, de uma constituição, é claro, resulta de uma espécie de convívio mais ou
menos contratualizado entre órgãos institucionais com funções diferentes, alimenta-se
desse entendimento e as responsabilidades partilham-se, mantendo o barco a navegar, o
país a funcionar, a gente a ir vivendo o dia a dia o melhor que pode. As democracias são
como as coisas em construção, que nunca podem ser acabadas. Discutem-se, defendem-
se, melhoram, projectam e à força de tempo e de experiência convencem e levam muita
gente a pensar e a estudar, tornam o povo mais robusto e capaz de pensar, distribuem
melhor a ração e andam atentas aos abusos e aos que pretendem voltar a ser senhores do
mundo, do nosso pequeno mundo ou país, da nossa casa ou da nossa causa.

Nos anos 90, assisti em França a uma crise social e política particularmente grave. O
país parou na sequência da uma greve geral dos transportes. A situação ficou pesada, as
instituições andavam nervosas, mas um dia de manhã as coisas começaram a mudar e
aquele povo sisudo e compenetrado, suficientemente mal disposto apesar de Balzac e
Flaubert, saiu à rua. Não se tratou de uma "desobediência civil", mas foi uma festa. Os
jovens dançavam na rua e andavam de skate e depois ajudavam as pessoas idosas a
atravessar e os sociólogos e filósofos desceram das suas torres e vieram para a Gare de
L'Est discutir com o povo e o povo parecia dizer que estava a viver uma espécie de
intervalo. Está bem, amanhã ou depois tudo volta ao normal, mas agora deixem-nos em
paz. E tudo voltou ao normal, mas nada ficou como dantes, porque a terra em que
assenta a democracia é coisa viva e as leis podem ser mudadas ou melhoradas e os
eleitos podem ser escrutinados e aquela caixinha mágica a que chamamos urna está
sempre à nossa espera para nela pormos o papelinho, no silêncio comovido das ideias e
dos desejos.

Alguns hão-de lembrar-se do que aconteceu nas eleições fraudulentas que Humberto
Delgado ganhou. Pagou com a morte o atrevimento. Não pensemos, amigos, nunca
pensemos, que estaremos para sempre livres desse tempo de vileza e opressão, desse
tempo de criminosos disfarçados de beatos, desse horror pandémico que atravessou a
Europa como um vírus histérico e criminoso. Vivemos em tempos difíceis, tempo de
cidades e de grandes acelerações, tempo de cansaços e de acumulações. Vivemos ainda
a histeria da velocidade e o medo da coisa incerta, que às vezes acorda os nossos sonhos
e os nossos bons propósitos. A democracia é um bem e o voto um direito. Eu gosto
muito de lá ir dobrar o papelinho, dizer de minha justiça e fico contente se vejo muita

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gente na rua nesse dia, como antigamente nas manhãs de Domingo, tempo festivo,
roupa lavada, aleluias a varrer o céu de tempestades e agoiros.
Meus amigos, se não falamos, alguém dirá por nós. Se não agimos, alguém andará a
realizar ou a congeminar coisas que não pretendíamos. Se não votamos, o sistema que
inventamos para regular o nosso convívio enquanto sociedade tenderá a enfraquecer e
então virão depreciá-lo os autoritários, os que sonham com o regresso ao passado de má
memória, embora nestes tempos não se atrevam a usar a mesma farda. Andarão a
cuidar-se nas marcas e em alguns salões, andarão perdendo noites a combinar negócios
e a contratar especialistas em transferências bancárias e ocultações de património e
sonham em legislar e apertar o gasganete aos mais afoitos e vigiam os agitadores e os
que não têm medo e espremem as leis com as suas súcias de malfeitores para oprimir
um pouco mais os pobres do salário mínimo, os deserdados da sorte, os desadaptados e
doentes, os inconformistas, os incapazes e os loucos. Às vezes á preciso dizer não e é
preciso dizer não muitas vezes.

Assim fez Antígona no extraordinário texto de Sófocles. Desobedeceu, contrariou o
édito de Creonte, o Rei, que impedia as cerimónias fúnebres do irmão Polinices.
Antígona desafiou o Rei, a lei e o estado, desafiou as armas e a sorte, mas fez o que
tinha que fazer, sabendo que devia ao irmão que jazia na terra crua para pasto dos
abutres e dos lobos, as libações e o lugar escavado, que amorosamente havia de receber
o seu corpo. Foi contra a indiferença que Antígona se rebelou, foi por amor e entrega e
para honrar a memória e o direito que ela abandonou o palácio para dar sepultura ao
irmão e procurar a condenação à morte. A história vive também destes heróis, dos que
souberam ser duros, porque tinham razão, dos que souberam ser corajosos, porque não
tinham medo, dos que souberam agir para poderem continuar a olhar o rosto, as mãos e
o coração, como coisas unidas num corpo digno de cidadão. Tantos foram os heróis!
Jesus que percorreu as terras, aldeias, cidades e caminhos e que sempre ficou junto dos
necessitados e dos que sofriam.

Meus amigos, a indiferença é uma coisa viva, um ser estranho, poderoso, programado,
desejado. A indiferença isola as pessoas humanas e, pior do que tudo, isola-as da
consciência moral e retira-lhes o ânimo, o desejo de acção, a alegria da vitalidade, o
desejo de um esforço por uma causa. O que aqui nos traz é um propósito de serenidade e
de alerta, uma vontade de lembrar e de apelar. Se é importante que participemos na vida

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pública? Claro que é. Se a nossa democracia é imperfeita? Claro que é. Se é difícil ter
tempo e resistência e ânimo para sair de casa em favor de um encontro destinado a
resolver ou a discutir assuntos comuns? Claro que é. Se é difícil e às vezes penoso
dedicarmos um pouco do nosso tempo à causa pública? Claro que é.

De momento, aqui e agora, nesta dia 7 de Junho, pelo fim tarde, reunimos numa sala
chamada Altice Forum, na cidade de Braga, e vimos apelar ao voto. Temos eleições
próximas. Não deixemos que falem por nós ou que do fundo das trevas e da ignomínia,
de lugares esconsos e inomináveis, possam multiplicar-se aqueles que nos querem
fechar à chave, sonhando talvez em ser mandarins de um negro reino, onde poderão
gritar alegremente vivas à morte.

Braga
7 de Junho de 2021
JMB


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