Opinião- Revalorizar a política por Silva Araújo

2021-08-12

Revalorizar a política

 
 

1. Está na Bíblia. Vem no livro dos Juízes (9, 1-15). Após a morte de Gedeão Abimelec fez-se proclamar Rei. Alertando para a má escolha feita pelo povo e para as suas perniciosas consequências Joatão contou o seguinte apólogo:

«Decidiram as árvores, um dia, ungir um rei para reinar sobre elas. Disserem à oliveira: ‘Reina sobre nós!’.

A oliveira respondeu: ’renunciaria eu ao meu azeite, que tanto apraz aos deuses como aos homens, a fim de balançar por sobre as árvores?’

Então as árvores disseram à figueira: ‘Vem tu reinar sobre nós!’

A figueira respondeu-lhes: ‘Iria eu abandonar a minha doçura e o meu saboroso fruto a fim de balançar por sobre as árvores?’

As árvores disseram então à videira: ‘Vem tu, e reina sobre nós!’

A videira respondeu-lhes: ’Iria eu abandonar o meu vinho novo, que alegra os deuses e os homens, a fim de balançar por sobre as árvores?’

Então todas as árvores disseram ao espinheiro: ‘Vem tu, e reina sobre nós!’

E o espinheiro respondeu às árvores: ‘Se é de boa fé que me ungis para reinar sobre vós, vinde e abrigai-vos à minha sombra. Se não, sairá fogo dos espinheiros e devorará os cedros do Líbano!».

2. Às vezes conseguem o poder indivíduos que se revelam como o espinheiro da fábula: fraudulentos e falsos – o espinheiro não dá sombra – que praticam a violência e exercem arbitrariamente o poder.

Nem sempre o poder cai em boas mãos, e isto também porque há cidadãos que assumem atitudes semelhantes às da oliveira, da figueira, da videira da fábula. Pessoas muito capazes recusam assumir postos de liderança. Por comodismo. Por não se querem desprender de atividades que exercem. Porque os cargos não são bem remunerados. Porque mandar é ser uma espécie de livro de reclamações sobre que recaem todas as queixas, etc.

  1. Se, em democracia, votar é um dever, não deixa de ser também dever, para quem tem qualidades e disponibilidade, integrar as listas a apresentar a sufrágio.

Não é bom que o poder esteja à mercê de aventureiros e de oportunistas. Mas isso acontecerá se os mais capazes lhes deixarem campo aberto. Porque o comodismo e os interesses pessoais são colocados acima do bem comum. E também porque há quem não tenha qualquer interesse em que os lugares de chefia sejam ocupados pelos mais honestos e pelos mais íntegros, pois ficaria sem espaço de manobra.

Se gente com capacidade e experiência não avançar não se estranhe o avanço da mediocridade.

4. A forma como em alguns casos se tem feito política descredibilizou-a, o que tem levado pessoas de bem a fugirem dela.

Diz o Papa Francisco: «Atualmente muitos possuem uma má noção da política e não se pode ignorar que frequentemente, por trás deste facto, estão os erros, a corrupção, a ineficiência de alguns políticos. A isto vêm juntar-se as estratégias que visam enfraquecê-la, substituí-la pela economia ou dominá-la por alguma ideologia» (Fratelli Tutti, 176).

«Convido uma vez mais, escreve o Papa, a revalorizar a política, que é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum» (Idem, 180). «É caridade se alguém ajuda outra pessoa fornecendo-lhe comida, mas o político cria-lhe um emprego, exercendo uma forma sublime de caridade que enobrece a sua ação política» (Idem 186).

5. É importante a existência de políticos que o sejam de verdade. Pessoas bem preparadas animadas pelo propósito de servirem com isenção e competência.

Não devemos correr o risco de dar origem a que a política se converta em refúgio de pessoas inexperientes. Que nunca souberam o que é tarimbar mas se apresentam, de peito feito, para assentarem praça em generais. Pessoas muito bem falantes a dizerem mal dos outros e a repetirem teorias mal assimiladas, vazias de conteúdo ou inexequíveis.


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