Opinião-Sacudir o pó dos pés por Luís Martins

2021-07-14

Daqui a nada, haverá mais uma vez uma campanha eleitoral seguida da nomeação de novos representantes do povo para juntas de freguesia e câmaras municipais. Uns terão verdadeira vocação, outros não. Uns quererão resolver problemas dos eleitores, outros estarão mais preocupados com o que ganharão pessoalmente, remetendo para segundo plano as preocupações dos cidadãos. Tais representantes deveriam concentrar-se na resposta às necessidades dos eleitores e, ao menos, no cumprimento das promessas apresentadas para valorizaram a candidatura e não na defesa dos seus projectos pessoais e privilégios. Bom seria que os escolhidos possuíssem vocação Amósiana: que vivessem para respeitar o interesse dos eleitores – com verdade e coerência – não se deixando manipular pelo interesse dos poderosos nem se deixassem amordaçar pelos seus próprios interesses pessoais.

Qual a missão dos eleitos? Lutar, qualquer que seja o cargo, pela satisfação dos interesses dos eleitores, procurando fazê-los felizes. Como o deveriam fazer? Com simplicidade, boa gestão do erário público e abstenção de regalias injustas. Perigos e oportunidades? O maior perigo é a cedência ao encanto dos poderosos ou que têm interesses instalados; a maior oportunidade é poder, resistindo às pressões, tornar efectiva a promoção da justiça social. Que qualidades devem ter? Não têm que ser “políticos profissionais”, melhor que não sejam. Têm que ser, em todo o tempo, íntegros. Infelizmente, são muitos os que saem dos cargos com um património incomensuravelmente superior ao que detinham antes de serem eleitos. Será que a diferença se explica por auferirem bons ordenados? Não, o problema está aí. Mas há mais advertências. Não devem ser “funcionários partidários”, zelando para que os interesses do seu partido sejam assegurados; nem ser “homens do aparelho”, do tipo Amasiasiano, enfeudados aos interesses da ordem estabelecida, comprometida com o poder político.

Para muitos, o que interessa é manter intocável um sistema que assegura benefícios mútuos, uma cumplicidade ligada por interesses recíprocos para manter o status quo e os privilégios. A “numenclatura” é poderosa. Mas, os interesses que devem contar devem ser apenas os dos eleitos. Os representantes devem ter uma missão semelhante à de um profeta que é livre face aos interesses do mundo e aos poderes instituídos. Devem estar comprometidos com os representantes, a todo o tempo, quaisquer que sejam as circunstâncias. E assim sendo, a sua missão terá autoridade por si própria porque desprendida, livre de interesses que não sejam o dos seus subordinados ou cidadãos. O povo deve ser a referência de onde parte e para onde se orienta a sua acção.

E volto de novo à missão. Eleitos para quê? Para serem irrepreensíveis defensores de todos os que estiverem a seu cargo. Difícil? Com toda a certeza! Mas, a não ser assim, a candidatura e exercício do cargo perde sentido democrático e solidário. Os representantes devem ser verdadeiros actores coordenadores de uma história de cidadania. E exercer a sua função como uma vocação. Além do mais, devem exercê-la subordinados ao programa sufragado e não ao que lhes der na real gana, ao sabor de minorias ou outros interesses mais ou menos obscuros.

Interesses pessoais e disponibilidade para recorrer ao abrigo do chapéu de poderosos serão tentações sempre presentes. Deixar para trás o que perturbar a missão do cargo é uma estratégia de resistência ao egoísmo pessoal e às pressões a que qualquer eleito fica sujeito. Por isso, se pode aplicar aqui o conselho do Evangelho de “sacudir o pó dos pés” no início de um empreendimento ou novo projecto, significando o desapego a interesses pessoais, a preconceitos e a renúncia a injustiças e à sobriedade nas mordomias e condições de trabalho. O serviço deve ser sem interesses pessoais, incondicional e independente. Uma bênção para as cidades e aldeias! Mas, onde encontramos autarcas e governantes com este sentido de cidadania e altruísmo?


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