Sampaio, a CNE e o futuro-opinião por Paulo Sousa

2021-09-12

O cidadão deixou-nos e com ele o espírito humanista de quem soube, a cada instante, convergir a sua disponibilidade por inteiro para os outros, para o bem comum. Nunca nos despedimos de um Homem assim, abraçamo-lo na memória e guardamos o seu legado, não por obrigação, mas pelo exemplo que nos pode inspirar a ser melhores pessoas; mais do que isso, melhores cidadãos, não fosse ele um exemplo que inspira a Cidadania ativa.

 Muitos como ele inspiraram milhões, conseguindo o efeito mobilizador na preocupação com o bem comum, o tal que tanta falta faz na iluminada cabeça de uns quantos que se mantém irredutivelmente na senda do negacionismo quanto à necessidade de colocarmos, de forma constante, o cidadão no centro das preocupações.

Jorge Sampaio, que conheci e acompanhei em vários momentos, na minha vida profissional, era um aristocrata do rigor, na palavra e na ação, munido de uma capacidade intelectual que nos remetia sempre para a responsabilidade comum e individual. Reconhecia a fraqueza de uma classe política que se deixava soçobrar e que teimava desalinhar com valores e princípios caros à Democracia. Mas nunca desistiu. Essa palavra nunca constou do seu léxico. Essa é uma lição que devemos assimilar para não cair na tentação de a considerar um ato normal em Democracia. O ex-Presidente da República será, se o quisermos que seja, um exemplo hoje e para o futuro de persistência e resistência. Menos saudável e até perigoso é olhar para o conformismo de que fala o porta-voz da Comissão Nacional de Eleições, em entrevista ao DN/TSF para justificar a ausência dos cidadãos e a sua abstenção e considerá-la uma razão de fundo para a Indiferença. João Tiago Machado não acredita na falta de maturidade política dos cidadãos e no entanto reside aí um dos imbróglios do sistema: se a maturidade conduz à responsabilidade, isso não se vê nos 45 por cento dos portugueses que, em média, não se deslocam às urnas. É de facto um problema de maturidade e também é, conforme defende, um problema de qualidade política dos candidatos. Os dois não podem ser dissociados da realidade que, não sendo um exclusivo português, é um dos defeitos que se tem perpetuado na sociedade e que teima se tornar quistoso. A saída para esta ausência de qualidade não é um exclusivo de uns em detrimento dos outros; é um problema da sociedade em geral. Não pode ser ignorado e não passa apenas por um exercício analógico do pensamento em que podemos afirmar e culpar uma parte e achar que resolvermos em consciência, o ponto fraco da Democracia. A consciência política dos cidadãos é a única saída; dela emana a exigência da qualidade, seja no capítulo da informação, seja na capacidade do exercício crítico em que deve assentar a prorrogativa do exercício da Cidadania. Acredito que o trabalho que começamos em Braga, tenha ou não, impacto na abstenção, nas próximas eleições autárquicas, demorará o seu tempo por uma única razão: não se resolve um defeito com 47 anos em meia dúzia de meses, demora anos e aí, os maiores protagonistas são os jovens. A mobilização dos mais novos, seja para a intervenção pública, seja para a escolha dos eleitos, é um dos desafios que temos pela frente, talvez o maior. Acredito que o movimento associativo, que é vibrante em Braga, está a dar o exemplo com a organização de debates, a distribuição dos programas das candidaturas e a elaboração de mensagens de apelo como aquela que foi lançada esta semana pela Jovem Coop. O seu exemplo é um sinal de esperança que elimina o conformismo, a indiferença e deixa-nos otimistas pelo seu carácter mobilizador. “No futuro também vamos votar”, ouve-se no final do vídeo daquela associação. São duas crianças e nelas reside e se concentra a esperança de uma melhor Democracia. Também é verdade que a mobilização dos mais novos não pode carregar um peso como se pudéssemos colocar nas suas costas toda a responsabilidade. A Educação para a cidadania começa em casa e nós, pais, somos os primeiros responsáveis. O papel das escolas é essencial, mas, também, a sociedade como um bem comum. No fundo, todos nós fazemos parte desta estatística que arrasa a Ágora moderna e nos obriga, em permanência, a um sobressalto cívico. Que assim seja se for essa a necessidade permanente para responder a este desafio que enfrentamos coletivamente: a construção de uma Cidadania informada, responsável e interventiva.  


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